Mais
exposições
Cada cabeça é um mundo
de MELISSA DE OLIVEIRA
09 Abr a 08 Jul 2026
Com patrocínio da Petrobras, a série Cada cabeça é um mundo, de Melissa Oliveira, fotografa a genialidade estética das barbearias nas favelas fluminenses, como o Jacaré e Manguinhos. Inspirada na cosmologia iorubá sobre o ori (cabeça) e na cultura urbana do "nevou", a mostra celebra cortes e cores como símbolos de identidade, coletividade e liberdade.

Para a cosmopercepção nagô-iorubá, os primeiros habitantes do mundo eram constituídos apenas de cabeça. Os ejá existiam como seres aquáticos que foram se desenvolvendo até atingir um corpo físico, tornando-se anfíbios e depois terrestres. Ejá passou a nomear os peixes, cujas formas são, eminentemente, compostas por cabeças. A divindade Iye Omo Ejá, a mãe cujos filhos são peixes, se popularizou, no Brasil, como Iemanjá, também cultuada, a partir do mito de criação, como a mãe de todas as cabeças.

Na série Cada cabeça é um mundo, Melissa Oliveira inventa mundos constituídos por cabeças. Em geral, masculinas, as cabeças os oris, no termo ioruba, ganham destaque e evidência pela diversidade de cortes e pinturas dos cabelos. A fotografia, então, registra e negocia os cortes, estimulados pela artista a partir de observações variadas. Nem “espelho do mundo”, nem “codificação das aparências”, como havia definido o teórico da fotografia Philippe Dubois. O ato fotográfico de Melissa vai em busca de um porvir, dos sintomas da mudança e da impermanência.

Com o passar do tempo, em áreas variadas do Rio de Janeiro, a explosão de cores e o próprio ato de descoloramento passaram a ganhar notoriedade para dentro e para fora das comunidades. “Nevou”, expressão usada no descoloramento, está por toda parte. Em beiras de estradas e de importantes avenidas da cidade, na subida dos morros, nos bairros da Baixada Fluminense, profissionais vão improvisando salões para o exercício da profissão. Ali, a cadeira de barbeiro, espelhos, capas de proteção, duchas ou chuveiros constituem os salões da atualidade, muitas vezes a céu aberto. Para além dos usos e adaptações de uma atividade informal, há uma revisão e, mesmo, uma invenção estética. Nas nomeações, nos estilos de corte, nos reflexos, a pintura que vai ganhando ênfase e se tornando expressão comum e partilhada pelos jovens consumidores: “curtinho rosa e reflexo”; “curtinho vermelho”; “pezinho quadrado e violeta genciana”; “enroladinho”; “cavanhaque pigmentado”. Esses são os títulos das fotografias de Melissa e dos cortes retratados. Sobre a proximidade com o ambiente masculino, em entrevista à Barbara Copque, Melissa afirma que “surge espontaneamente (…) por identificação”.

Na criação dos barbeiros, há um modo de exercer a liberdade frente à estética de uma indústria de cosméticos que sempre privilegiou as pessoas de fenótipos brancos e de cabelos lisos. Agora, como acontecera ao movimento negro, na variedade de cores e geometrias que constituem as nucas, as testas, entradas, costeletas, criam-se coroações, empoderamento identitário. Hoje, ao contrário do que predefiniu as pertenças raciais, cabelos podem ter cores antinaturais, amarelos fluorescentes, lilases. Cachos são terminados em tons alterados, inventando-se cabelos bicolores. E a escolha pela aparência vai ganhando a ousadia que os próprios artistas visuais instituíram no mundo e exigiram o poder de dissociar cores e formas, padrões e normas.

Loiro pivete (2029)

Melissa Oliveira observa, então, as expressões identitárias mais evidentes nos bairros e comunidades fluminenses. Oriunda do Morro do Dendê, na Ilha do Governador, Melissa delineia uma trajetória em que a presença do afrontamento, da criatividade e do ilícito se tornam memoráveis, pois se perenizam no clique fotográfico.

Cada cabeça é um mundo parte da capa de um LP homônimo do grupo Timbalada de 1995. Na capa, a foto de David Glatt mostra uma visão aérea de homens com cabeças raspadas onde motivos geométricos são pintados pelo artista Ray Vianna com tinta branca. Cria-se, na imagem, um único aglomerado. Melissa assume a admiração por essa imagem e o desejo de, um dia, conseguir realizar algo que se relacione com tal ideia. Tanto na história da artista quanto na do grupo coordenado por Carlinhos Brown, vemos a possibilidade de bairros considerados periféricos, como o Candeal, em Salvador, e o Morro do Dendê, na Ilha do Governador, se tornarem centro de referência artístico-cultural. Melissa Oliveira, hoje, amplia sua pesquisa para outras quebradas, realizando ações em diversos bairros.

As fotografias apresentadas nesta exposição partem de três localidades específicas, o Jacaré (Jaca), Manguinhos e Chatuba. Dali, a artista pesquisa e se relaciona com profissionais que produzem a moda dos cortes e pinturas. São tão importantes as presenças de tais criadores nos respectivos lugares que os próprios cortes de cabelo vão ganhando notoriedade    ao especificar, nos nomes, tais localidades, agora assumidos em outros territórios, como o corte “Manguinhos” ou “Jaca”. Melissa mantém, nas fotografias, os ângulos que são, muitas vezes, exibidos nas paredes das barbearias. Ângulos que mostram o rosto de frente, de lado, de costas para especificar os detalhes diferenciais. Segundo a artista nos explica, entre as comunidades não existe um consenso de onde, exatamente, tais cortes apareceram. O fato é que estamos lidando com o sentido de coletividade e de atitude, gestos impregnados no dia a dia sem, necessariamente, representar panfletos específicos.

A cabeça, o ori, constitui o mundo, sem dúvida. Mundos que são escolhidos, segundo a filosofia ioruba, por nós mesmos, no momento em que somos designados a nascer. Cada um escolhe uma cabeça, cada um escolhe seu mundo. Portanto, as cabeças fazem e não fazem parte cosmologicamente de um corpo. Inevitável pensarmos nos modos como a iniciação, nas religiões de matriz africana, valorizam o gesto de raspar e pintar as cabeças. Cada cabeça é um mundo, de Melissa Oliveira, trata de ritos de renascimento, de renomeação e de uma vida nova, por instantes, trazendo e projetando pessoas para o destino a ser seguido, revisando o que já estaria escrito no propósito original.

Marcelo Campos
curador

A artista Melissa de Oliveira • Foto: Rafael Adorján

Ficha Técnica

Curador
Marcelo Campos

Expografia
Gisele de Paula

Produtora artística
Helena Cícero

Iluminação para fotografias
Jon Thomaz

Assistente de fotografia
Jon Thomaz

Barbeiros
Leo Du Corte
JM Du Corte
Snjupirado
Diin Du Jacaré
Kibe Do Corte

Impressão fine art
Thiago Barros Arte Lab.

Molduras
Moldurax

Iluminação
Antonio Mendel – Espaço Luz

Equipamentos audiovisuais
MB Produção e Publicidade Ltda

Sinalização
Ginga Design

Revisora
Jadelice Souza

Comunicação visual
Lucas Bevilaqua

Fotografias
Vicente de Mello

Campo obrigatórioPreencha o e-mailPreencha o nomeEmail inválido